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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pais pela igualdade. Porque pode demorar, mas um dia vai amanhecer, isso vai

Copiei de Todos Iguais, blog imperdível no qual escreve minha querida amiga Maju Giorgi, uma valente mãe pela igualdade. 
Além do meu, tenho a honra de reproduzir aqui os depoimentos de Tio Dago e de Luiz Vaz, que já passam a ser meus mais novos e formidáveis amigos incondicionais.
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PAIS PELA IGUALDADE
Eu costumo dizer que se uma mãe é de prata, um pai pela igualdade é de ouro cravejado de brilhantes. Tenho a impressão de que cada pai equivale a umas 200 ou 300 mães. Que raros são. Tive muita dificuldade de conseguir 3 que nos dessem um depoimento. A intenção??? Talvez dar coragem para que outros pais saiam do armário. Me chama a atenção nos 3, a sensibilidade muito grande e foi esse o ponto em comum que percebi entre eles, desde o começo da minha pesquisa.

PAULO, autor do Blog ORNITORRINCO http://prcequinel.blogspot.com.br/, um guerreiro sempre sedento por justiça, que tem seus protestos cobertos por um lirismo latente. Paulo, o pai do JEAN, que ensinou o neto a amar o tio e a todos independente da sexualidade e que une a família cheio de orgulho em torno da causa LGBT!!! 

TIO DAGÔ, condecorado pela prefeitura de São João del Rey, por sua luta incansável por igualdade. O único pai de LGBT militante da sua cidade. Ele que posta as músicas lindas que não tenho mais tempo de me lembrar nessa correria insana e que me remetem sempre a dias felizes, e me enchem nostalgia. DAGÔ, pai da DEDÉ.

LUIZ VAZ, que nos emocionou a todos, quando o filho DANIE, sofreu um ataque homofóbico covarde e que transformou seu protesto e indignação em poesia. Luiz é o pai poeta. Esse tem uma sensibilidade tão grande que transborda em versos mil por não caber dentro dele. LUIZ VAZ, pai de DANIE VAZ. 

São homens especiais!!! Nos chamam a atenção pela instrução, pela sede de saber, pela ânsia de mudar o mundo e de defender os filhos. Mais que sensibilidade e coragem, eles não tem medo de ser DIFERENTES desse estereótipo de pai que vemos por ai. Poderia ter feito uma entrevista com perguntas lugar comum e respostas clichê, mas preferi deixar que eles falassem livremente para que cada um grifasse sua emoção onde preferisse. JEAN, DEDE e DANIE , que sorte vocês tem. PAULO, DAGO e LUIZ….a comunidade LGBT aplaude , agradece e se emociona com vocês !!! OBRIGADO POR EXISTIREM… JÓIAS RARAS !!!
Maju Giorgi
Uma Mãe Pela Igualdade
 
PAULO ROBERTO CEQUINEL
Companheiro Paulo Roberto Cequinel, seu Filho Jean Cequinel e German seu neto no Ato contra Homofobia realizado em Antonina


Tenho três filhos, Paulo Júnior, Luciano e Jean, e deles me orgulho quase que incondicionalmente, pois os piazotes são melancólicos torcedores do Atlético/PR e, imperfeito pai gloriosamente coxa branca, quando tomo uns vinhotes pergunto aos meus botões e aos meus fantasmas o que fiz de errado e cousa e tal e cousa e lousa.
Os dois mais velhos, Paulo e Luciano, tiveram a chamada gestação regulamentar e nasceram em minha vida em 1981 e 1982. Jean, entretanto, só em 2004 levou a clássica “palmadinha na bunda”, não de um médico, mas de um juiz de direito, quando eu e Sonia o adotamos, e ele nasceu em nossas vidas já com 10 anos. Abro parêntesis. Ele não vai gostar que eu conte isso, mas vamos lá, eu sou seu pai, e pais tem poderes mágicos, meu menino. Logo que nos conhecemos perguntei onde havia nascido e sua resposta nunca mais sairá da minha cabeça: “Blumenário Camboríu”, uma mistura de Blumenau e Balneário Camboriú, onde ele de fato nasceu em 1994. Fecho parêntesis, mas abro de novo e peço licença para dizer que lembranças tão marcantes me emocionam. Eita, que boa a minha vida! Fecho parêntesis.
Aprendizado, tato, experimentos, dúvidas, olhares, colo e cafunés, brigas e afirmação da minha condição de pai e não de amigo, e ele também nos testando depois de tudo o que sofreu, e vamos construindo uma relação baseada nos achados, nas surpresas, no amor, nos limites, nas diferenças, no carinho, no caminhar e no desenhar a trilha, que não tem outro jeito, e seguimos em frente, e vamos bem, eu acho.
Pois Jean, aos 17 anos, proclamou sua clara decisão de viver abertamente sua sexualidade, sem negar-se ou esconder-se, até porque não tem do que envergonhar-se, e tem apoio irrestrito aqui em casa, e nosso amor incondicional, e isso facilita um pouco as coisas pra ele, é claro, mas tenho medo: vivemos num país que, até junho de 2012, matou um(a) LGBTT a cada 26 horas, no mais das vezes com requintes de inominável crueldade. Vocês percebem porque tenho medo, entendem isso e são capazes de sacar que minha família está sob evidente ameaça?
A mais clara ameaça tem origem, hoje, e quero deixar isso bem assentado, nos inumeráveis programas de TV que apresentam as picaretagens evangélicas e católicas (ou vocês pensam que a LGBTT-fobia da renovação carismática é menos perigosa do que a do apóstolo Valdomiro, do Edir Macedo e do Silas Malafaia, dentre outros patifes?) e, de outra banda, nos deputados e senadores, de todos os partidos, que constituem a imundície fundamentalista que se reúne na Bancada Evangélica que está a discutir “cura gay” e merdas assemelhadas. Meu filho não é aberração, nem abominação e não é doente, seus anormais fundamentalistas de bosta. Como qualquer rapaz de 18 anos, estuda muito, trabalha, faz política no PT, na UPES, e mantém sua cabeça erguida. Não é melhor que ninguém, nem pior, é diferente, mas tem o seguinte, e fiquem avisados: é meu filho, e eu o amo, e a dor que ele sentir doerá em mim, o medo dele é o meu medo. Qualquer filho-da-puta que ousar ofender, humilhar, constranger ou, muito pior, tocar um fio de cabelo dele, eu prometo, terá minha resposta, e nos meus termos. LGBTT-fobia eu trato a pontapés, ainda que metafóricos. Por enquanto. (Paulo Júnior e Luciano não fiquem enciumados, meninos: amo vocês dois incondicionalmente)
 
TIO DAGO
Sobre a minha querida filha Dedé. Eu sempre soube que minha filha era homossexual. Eu não perguntava, não invadia. Esperava o dia em que ela se quisesse falar sobre o assunto. Enquanto isso deixava claro que, para mim, a orientação homossexual era tão legitima quanto qualquer outra. Eu, do fundo do coração, não sou homofóbico. Mesmo assim, quando ela saiu do armário eu fiquei, por um momento, paralisado.
Um medo devastador da homofobia que ela teria que enfrentar e um imenso orgulho de ser pai de uma menina tão honesta. Uma menina que preferiu ser verdadeira consigo mesma, com a família, com os amigos e com a vida. Minha admiração por minha filha, que sempre foi grande, só tem crescido desde então.
É nítido o quanto ela se tornou uma pessoa ainda mais generosa. Penso que o sofrimento de sua própria aceitação a tornou mais capaz de compreender o sofrimento humano, sem julgamentos e sem cobranças. A coragem que ela buscou em seu interior para assumir sua orientação sexual impregnou toda a sua vida. Hoje ela é uma profissional brilhante, respeitada e com uma carreira em ascensão. Gosto de pensar que a plena aceitação de sua orientação sexual, tanto por mim quanto por minha esposa, contribuiu para que ela se tornasse mais segura e confiante na vida. Não me iludo. Sei que ela ainda vai enfrentar muita homofobia pela vida. Mas estaremos aqui. Eu e sua mãe. E ela pode vir quando quiser se reabastecer de amor, compreensão e respeito.
 
LUIZ VAZ
Escrever sobre a experiência de pai, não é fácil, sem as não menos honestas, mas, muito mais raras traduções poéticas, torna-se muito mais difícil. E quando se trata de ser pai de um jovem homossexual, o que deveria não ter destaque com relação ao fato de ser simplesmente pai, tem uma qualidade diferente numa sociedade como a nossa que quanto a isso tão pouco compreende.
No isolamento do exemplo, partindo para uma pretensa missão de sermos um dia considerados apenas pais, sem nenhum destaque, militamos crédulos que um certo tempo chegará em que a condição sexual, o desejo de pessoas adultas em relação a outras pessoas adultas e suas diversas e sutis nuances seja assunto que não interesse a ninguém mais, além das próprias pessoas envolvidas. Por isso me coloco a escrever esse depoimento. A partir desse confuso preâmbulo, e porque redigi uma palavra que para mim é chave na minha relação de compreensão do mundo sexual do meu filho, que não é o meu e nem poderia ser, porque cada indivíduo tem o seu, a palavra CONDIÇÃO.
Sigo deste termo para trás para fazer um retrospecto da minha relação com ele e sua assumida condição, tão pouco compreendida na nossa sociedade, e em certo tempo por mim também. Era perceptível a inadequação do Danie nesse nosso mundo machista, isso se percebia todas as vezes em que nas festa, sua dança ‘eufórica demais’ era agressivamente travada com um comentário: “Dança que nem homem!”, além de todas as piadinhas de bicha que a gente vive contando nos eventos de família, sem se preocupar, ou se ater ao fato de que ali entre nós sorrisos amarelos de indignada porém resignada concordância sobre o ridículo que pretendemos sempre ver no diferente se esboçam em solitários rostos.
A família repetia sempre, porque os eventos também se repetiam, até que certo momento, chamei a atenção dos homens na roda pra dizer, vocês sabem que seu sobrinho é homossexual? Essas piadinhas agora, mas, do que nunca não fazem nenhum sentido na nossa família. Isso foi partindo de mim de uma compreensão lenta que eu me obrigava a alcançar por um amor paternal. Lembro, quando meu filho me falou numa frase um tanto enigmática, num abraço do ano novo – Pai, eu não te darei netos! Eu entendi e achei bonito ele ter me exigido essa leitura mais caprichosa do fato, até porque nada impede um homossexual de ter ou mesmo adotar um filho, que bom!
Mas, mesmo assim eu entendi, continuamos essa conversa no caminho para a faculdade dele onde fomos juntos resolver uma questão financeira ou burocrática, não lembro, ele me disse que queria falar algo comigo, perguntou se eu já podia antecipar o que era, talvez pra facilitar pra ele, e eu disse que sim, coloquei a frase como pergunta, você é homossexual, não é isso? E na sequência disse: Se essa é a sua escolha, meu filho, tudo bem, quero que você seja feliz… e todas essas coisas, mas, ele me interrompeu com uma frase forte, que me deu muita segurança de que ele tinha uma dimensão muito definida sobre a sua posição no mundo, ele disse: Escolha não pai, condição! Vamos pensar, realmente, além de não ser uma escolha algo que é tão intimamente ligado a pessoa como os gostos, as crenças mais profundas, o humor, as solitárias angústias, o desejo.
Quem de nós, se pudéssemos escolher, escolheria a perseguição, a incompreensão que recaí sobre si e que vem dos outros? Danie com a sua atitude altiva sempre conquistou terrenos de respeito, já viveu e creio viverá muitas outras vezes a experiência de levar seu namorado na casa dos meus pais, e com ele sentar no sofá da sala, recebidos tal como os casais formados por suas primas evangélicas e seus primeiros namorados. Sobre sexualidade uma vez ouvi do teatrólogo Amir Haddad a melhor definição: Quantos somos no mundo? Já chegamos ao trilhão? Então somos um trilhão de sexualidades!

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