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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Arrocho, com ou sem cuspe, é arrocho, no Brasil ou na Grécia

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O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, hoje a serviço da Virgencita Botinuda e Financeira, lamenta dizer que a Grécia é aqui, meninos e meninas da estrelinha (que guardo aqui no peito, friso), e não se trata de mera comparação entre as duas economias, e nem da - vá lá - intensidade do arrocho ou, permitam-me a dura franqueza, se o nosso arrocho é aplicado com gel lubrificante. Lá e aqui o arrocho é para pagar a banca à custa do nosso couro.
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Copiei do Jornal GGN
Especialista brasileira em dívida pública, na Grécia, compara os países

Da Carta Capital

“A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado”

Por Renan Truffi

Para ex-auditora da Receita, convidada pelo Syriza para analisar a dívida grega, sistema atual provoca desvio de recursos públicos para o mercado financeiro

Dois meses antes de o governo Dilma Rousseff anunciar oficialmente o corte de 70 bilhões de reais do Orçamento por conta do ajuste fiscal, uma brasileira foi convidada pelo Syriza, partido grego de esquerda que venceu as últimas eleições, para compor o Comitê pela Auditoria da Dívida Grega com outros 30 especialistas internacionais. A brasileira em questão é Maria Lucia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento “Auditoria Cidadã da Dívida” no Brasil. Mas o que o ajuste tem a ver com a recuperação da economia na Grécia? Tudo, diz Fattorelli. “A dívida pública é a espinha dorsal”.

Enquanto o Brasil caminha em direção à austeridade, a estudiosa participa da comissão que vai investigar os acordos, esquemas e fraudes na dívida pública que levaram a Grécia, segundo o Syriza, à crise econômica e social. “Existe um ‘sistema da dívida’. É a utilização desse instrumento [dívida pública] como veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro”, complementa Fattorelli.

Esta não é a primeira vez que a auditora é acionada para esse tipo de missão. Em 2007, Fattorelli foi convidada pelo presidente do Equador, Rafael Correa, para ajudar na identificação e comprovação de diversas ilegalidades na dívida do país. O trabalho reduziu em 70% o estoque da dívida pública equatoriana.

Em entrevista a CartaCapital, direto da Grécia, Fattorelli falou sobre como o “esquema”, controlado por bancos e grandes empresas, também se repete no pagamento dos juros da dívida brasileira, atualmente em 334,6 bilhões de reais, e provoca a necessidade do tal ajuste.

Leia a entrevista:

CartaCapital: O que é a dívida pública?

Maria Lucia Fattorelli: A dívida pública, de forma técnica, como aprendemos nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. Isso em principio.

CC: E onde começa o problema? 

MLF: O problema começa quando nós começamos a auditar a dívida e não encontramos contrapartida real. Que dívida é essa que não para de crescer e que leva quase a metade do Orçamento? Qual é a contrapartida dessa dívida? Onde é aplicado esse dinheiro? E esse é o problema. Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.

CC: E quem, normalmente, são os beneficiados por esse esquema? Em 2014, por exemplo, os juros da dívida subiram de 251,1 bilhões de reais para 334,6 bilhões de reais no Brasil. Para onde está indo esse dinheiro de fato?

MLF: Nós sabemos quem compra esses títulos da dívida porque essa compra direta é feita por meio dos leilões. O processo é o seguinte: o Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Como o Banco Central vende? Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. A lista dos dealers nós temos. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC...é por isso que a gente fala que, hoje em dia, falar em dívida externa e interna não faz nem mais sentido. Os bancos estrangeiros estão aí comprando diretamente da boca do caixa. Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.

CC: Por quê provavelmente?

MLF: Por que nem mesmo na CPI da Dívida Pública, entre 2009 e 2010, e olha que a CPI tem poder de intimação judicial, o Banco Central informou quem são os detentores da dívida brasileira. Eles chegaram a responder que não sabiam porque esses títulos são vendidos nos leilões. O que a gente sabe que é mentira. Porque, se eles não sabem quem são os detentores dos títulos, para quem eles estão pagando os juros? Claro que eles sabem. Se você tem uma dívida e não sabe quem é o credor, para quem você vai pagar? Em outro momento chegaram a falar que essa informação era sigilosa. Seria uma questão de sigilo bancário. O que é uma mentira também. A dívida é pública, a sociedade é que está pagando. O salário do servidor público não está na internet? Por que os detentores da dívida não estão? Nós temos que criar uma campanha nacional para saber quem é que está levando vantagem em cima do Brasil e provocando tudo isso.

CC: Qual é a relação entre os juros da dívida pública e o ajuste fiscal, em curso hoje no Brasil?

MLF: Todo mundo fala no corte, no ajuste, na austeridade e tal. Desde o Plano Real, o Brasil produz superávit primário todo ano. Tem ano que produz mais alto, tem ano que produz mais baixo. Mas todo ano tem superávit primário. O que quer dizer isso, superávit primário? Que os gastos primários estão abaixo das receitas primárias. Gasto primários são todos os gastos, com exceção da dívida. É o que o Brasil gasta: saúde, educação...exceto juros. Tudo isso são gastos primários. Se você olhar a receita, o que alimenta o orçamento? Basicamente a receita de tributos. Então superávit primário significa que o que nós estamos arrecadando com tributos está acima do que estamos gastando, estão está sobrando uma parte.

CC: E esse dinheiro que sobra é para pagar os juros dívida pública?

MLF: Isso, e essa parte do superávit paga uma pequena parte dos juros porque, no Brasil, nós estamos emitindo nova dívida para pagar grande parte dos juros. Isso é escândalo, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe o que se chama de anatocismo. Quando você contrata dívida para pagar juros, o que você está fazendo? Você está transformando juros em uma nova divida sobre a qual vai incidir juros. É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso. Quando nós investigamos qual é a contrapartida da dívida interna, percebemos que é uma dívida de juros sobre juros. A divida brasileira assumiu um ciclo automático. Ela tem vida própria e se retroalimenta. Quando isso acontece, aquele juros vai virar capital.  E, sobre aquele capital, vai incidir novos juros. E os juros seguintes, de novo vão se transformados em capital. É, por isso, que quando você olha a curva da dívida pública, a reta resultante é exponencial. Está crescendo e está quase na vertical. O problema é que vai explodir a qualquer momento.

CC: Explodir por quê?

MLF: Por que o mercado – quando eu falo em mercado, estou me referindo aos dealers – está aceitando novos títulos da dívida como pagamento em vez de receber dinheiro moeda? Eles não querem receber dinheiro moeda, eles querem novos títulos, por dois motivos. Por um lado, o mercado sabe que o juros vão virar novo título e ele vai ter um volume cada vez maior de dívidas para receber. Segundo: dívida elevada tem justificado um continuo processo de privatização. Como tem sido esse processo? Entrega de patrimônio cada vez mais estratégico, cada vez mais lucrativo. Nós vimos há pouco tempo a privatização de aeroportos. Não é pouca coisa os aeroportos de Brasília, de São Paulo e do Rio de Janeiro estarem em mãos privadas. O que no fundo esse poder econômico mundial deseja é patrimônio e controle. A estratégia do sistema da dívida é a seguinte: você cria uma dívida e essa dívida torna o pais submisso. O país vai entregar patrimônio atrás de patrimônio. Assim nós já perdemos as telefônicas, as empresas de energia elétrica, as hidrelétricas, as siderúrgicas. Tudo isso passou para propriedade desse grande poder econômico mundial. E como é que eles [dealers] conseguem esse poder todo? Aí entra o financiamento privado de campanha. É só você entrar no site do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] e dar uma olhada em quem financiou a campanha desses caras. Ou foi grande empresa ou foi banco. O nosso ataque em relação à dívida é porque a dívida é o ponto central, é a espinha dorsal do esquema.

CC: Como funcionaria a auditoria da dívida na prática? Como diferenciar o que é dívida legítima e o que não é?

MLF: A auditoria é para identificar o esquema de geração de dívida sem contrapartida. Por exemplo, só deveria ser paga aquela dívida que preenche o requisito da definição de dívida. O que é uma dívida? Se eu disser para você: ‘Me paga os 100 reais que você me deve’. Você vai falar: “Que dia você me entregou esses 100 reais?’ Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso aqui na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS [Credit Default Swap - espécie de seguro contra calotes], essa parafernália toda desse mundo capitalista 'financeirizado'. Tudo isso, de uma hora para outra, pode virar dívida pública. O que é a auditoria? É desmascarar o esquema. É mostrar o que realmente é dívida e o que é essa farra do mercado financeiro, utilizando um instrumento de endividamento público para desviar recursos e submeter o País ao poder financeiro, impedindo o desenvolvimento socioeconômico equilibrado. Junto com esses bancos estão as grandes corporações e eles não têm escrúpulos. Nós temos que dar um basta nessa situação. E esse basta virá da cidadania. Esse basta não virá da classe politica porque eles são financiados por esse setor. Da elite, muito menos porque eles estão usufruindo desse mecanismo. A solução só virá a partir de uma consciência generalizada da sociedade, da maioria. É a maioria, os 99%, que está pagando essa conta. O Armínio Fraga [ex-presidente do Banco Central] disse isso em depoimento na CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Dívida, em 2009, quando perguntado sobre a influência das decisões do Banco Central na vida do povo. Ele respondeu: “Olha, o Brasil foi desenhado para isso”. 

CC: Quanto aproximadamente da dívida pública está na mão dos bancos e de grandes empresas? O Tesouro Direto, que todos os brasileiros podem ter acesso, corresponde a que parcela do montante?

MLF: Essa história do Tesouro Direto é para criar a impressão que a dívida pública é um negócio correto, que qualquer um pode entrar lá e comprar. E, realmente, se eu ou você comprarmos é uma parte legítima. Agora, se a gente entrar lá e comprar, não é direto. É só para criar essa ilusão. Tenta entrar lá para comprar um título que seja. Você vai chegar numa tela em que vai ter que escolher uma instituição financeira. E essa instituição financeira vai te cobrar uma comissão que não é barata. Ela não vai te pagar o juros todo do título, ela vai ficar com um pedaço. O banco, o dealer, que compra o título da dívida é quem estabelece os juros. Ele estabelece os juros que ele quer porque o governo lança o título e faz uma proposta de juros. Se, na hora do leilão, o dealer não está contente com aquele patamar de juros, ele não compra. Ele só compra quando o juros chega no patamar que ele quer. Invariavelmente, os títulos vêm sendo vendidos muito acima da Selic [taxa básica de juros]. Em 2012, quando a Selic deu uma abaixada e chegou a 7,25%, nós estávamos acompanhando e os títulos estavam sendo vendidos a mais de 10% de juros. E eles sempre compram com deságio. Se o título vale 1000 reais, ele compra por 960 reais ou 970 reais, depende da pressão que ele quer impor no governo aquele dia. Olha a diferença. Se você compra no Tesouro Direto, você não vai ter desconto. Pelo contrário, você vai ter que pagar uma comissão. E você também não vai mandar nos juros. É uma operação totalmente distinta da operação direta de verdade que acontece lá no leilão.

CC: Por que é tão difícil colocar a auditoria em prática? Como o mercado financeiro costuma reagir a uma auditoria?

MLF: O mercado late muito, mas na hora ele é covarde. Lá no Equador, quando estávamos na reta final e vários relatórios preliminares já tinham sido divulgados, eles sabiam que tínhamos descoberto o mecanismo de geração de dívida, várias fraudes. Eles fizeram uma proposta para o governo de renegociação. Só que o Rafael Correa [atual presidente do Equador] não queria negociar. Ele queria recomprar e botar um ponto final. Porque quando você negocia, você dá uma vida nova para a dívida. Você dá uma repaginada na dívida. Ele não queria isso. Ele queria que o governo dele fosse um governo que marcasse a história do Equador. Ele sabia que, se aceitasse, ficaria subjugado à dívida. Ele foi até o fim, fez uma proposta e o que os bancos fizeram? 95% dos detentores dos títulos entregaram. Aceitaram a oferta de recompra de no máximo 30% e o Equador eliminou 70% de sua dívida externa em títulos. No Brasil, durante os dez meses da CPI da Dívida, a Selic não subiu. Foi incrível esse movimento. Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um mega esquema de corrupção institucionalizado.

CC: O mercado financeiro e parte da imprensa costumam classificar a auditoria da dívida de calote. Por que a auditoria da dívida não é calote?

MLF: A auditoria vai investigar e não tem poder de decisão do que vai ser feito. A auditoria só vai mostrar. No Equador, a auditoria só investigou e mostrou as fraudes, mecanismos que não eram dívidas, renúncias à prescrição de dívidas. O que é isso? É um ato nulo. Dívidas que já estavam prescritas. Uma dívida prescrita é morta. E isso aconteceu no Brasil também na época do Plano Brady, que transformou dívidas vencidas em títulos da dívida externa. Depois, esses títulos da dívida externa foram usados para comprar nossas empresas que foram privatizadas na década de 1990: Vale, Usiminas...tudo comprado com título da dívida em grande parte. Você está vendo como recicla? Aqui, na Grécia, o país está sendo pressionado para pagar uma dívida ilegítima. E qual foi a renegociação feita pelo [Geórgios] Papandréu [ex-primeiro-ministro da Grécia]? Ele conseguiu um adiamento em troca de um processo de privatização de 50 bilhões de euros. Esse é o esquema. Deixar de pagar esse tipo de dívida é calote? A gente mostra, simplesmente, a parte da dívida que não existe, que é nula, que é fraude. No dia em que a gente conseguir uma compreensão maior do que é uma auditoria da dívida e a fragilidade que lado está do lado de lá, a gente muda o mundo e o curso da história mundial.

CC: Em comparação com o ajuste fiscal, que vai cortar 70 bilhões de reais de gastos, tem alguma estimativa de quanto a auditoria da dívida pública poderia economizar de despesas para o Brasil?

MLF: Essa estimativa é difícil de ser feita antes da auditoria, porém, pelo que já investigamos em termos de origem da dívida brasileira e desse impacto de juros sobre juros, você chega a estimativas assustadoras. Essa questão de juros sobre juros eu abordei no meu último livro. Nos últimos anos, metade do crescimento da divida é nulo. Eu só tive condição de fazer o cálculo de maneira aritmética. Ficou faltando fazer os cálculos de 1995 a 2005 porque o Banco Central não nos deu os dados. E mesmo assim, você chega a 50% de nulidade da dívida, metade dela. Consequentemente para os juros seria o mesmo [montante]. Essa foi a grande jogada do mercado financeiro no Plano Real porque eles conseguiram gerar uma dívida maluca. No início do Plano Real os juros brasileiros chegaram a mais de 40% ao ano. Imagina uma divida com juros de 40% ao ano? Você faz ela crescer quase 50% de um ano para o outro. E temos que considerar que esses juros são mensais. O juro mensal, no mês seguinte, o capital já corrige sobre o capital corrigido no mês anterior. Você inicia um processo exponencial que não tem limite, como aconteceu na explosão da dívida a partir do Plano Real. Quando o Plano Real começou, nossa dívida estava em quase 80 bilhões de reais. Hoje ela está em mais de três trilhões de reais. Mais de 90% da divida é de juros sobre juros.

CC: E isso é algo que seria considerado ilegal na auditoria da dívida pública?

MLF: É mais do que ilegal, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe juros sobre juros para o setor público. Tem uma súmula do Supremo Tribunal Federal, súmula 121, que diz que ainda que tenha se estabelecido em contrato, não pode. É inconstitucional. Tudo isso é porque tem muita gente envolvida, favorecida e mal informada. Esses tabus, essa questão do calote, muita gente fala isso. Eles tentam desqualificar. Falamos em auditoria e eles falam em calote. Mas estou falando em investigar. Se você não tem o que temer, vamos abrir os livros. Vamos mostrar tudo. Se a dívida é tão honrada, vamos olhar a origem dessa dívida, a contrapartida dela.

CC: Ao longo da entrevista, a senhora citou diversos momentos da história recente do Brasil, o que mostra que esse problema vem desde o governo Fernando Henrique Cardoso, e passou pelas gestões Lula e Dilma. Mas como a questão da dívida se agravou nos últimos anos? A dívida externa dos anos 1990 se transformou nessa dívida interna de hoje?

MLF: Houve essa transformação várias vezes na nossa história. Esses movimentos foram feitos de acordo com o interesse do mercado. Tanto de interna para externa, como de externa para interna, de acordo com o valor do dólar. Esses movimentos são feitos pelo Banco Central do Brasil em favor do mercado financeiro, invariavelmente. Quando o dólar está baixo, e seria interessante o Brasil quitar a dívida externa, por precisar de menos reais, se faz o contrário. Ele contrai mais dívida em dólar. Esses movimentos são sempre feitos contra nós e a favor do mercado financeiro.

CC: E o pagamento da dívida externa, em 2005?

MLF: O que a gente critica no governo Lula é que, para pagar a dívida externa em 2005, na época de 15 bilhões de dólares, ele emitiu reais. Ele emitiu dívida interna em reais. A dívida com o FMI [Fundo Monetário Internacional] era 4% ao ano de juros. A dívida interna que foi emitida na época estava em média 19,13% de juros ao ano. Houve uma troca de uma dívida de 4% ao ano para uma de 19% ao ano. Foi uma operação que provocou danos financeiros ao País. E a nossa dívida externa com o FMI não era uma dívida elevada, correspondia a menos de 2% da dívida total. E por que ele pagou uma dívida externa para o FMI que tinha juros baixo? Porque, no inconsciente coletivo, divida externa é com o FMI. Todo mundo acha que o FMI é o grande credor. Isso, realmente, gerou um ganho político para o Lula e uma tranquilidade para o mercado. Quantos debates a gente chama sobre a dívida e as pessoas falam: “Esse debate já não está resolvido? Já não pagamos a dívida toda?’. Não são poucas as pessoas que falam isso por conta dessa propaganda feita de que o Lula resolveu o problema da dívida. E o mercado ajuda a criar essas coisas. Eu falo o mercado porque, na época, eles também exigiram que a Argentina pagasse o FMI. E eles também pagaram de forma antecipada. Você vê as coisas aconteceram em vários lugares, de forma simultânea. Tudo bem armado, de fora para dentro, na mesma época.

CC: O que a experiência grega de auditoria da dívida poderia ensinar ao Brasil, na sua opinião?

MLF: São muitas lições. A primeira é a que ponto pode chegar esse plano de austeridade fiscal. Os casos aqui da Grécia são alarmantes. Em termos de desemprego, mais de 100 mil jovens formados deixaram o país nos últimos anos porque não têm emprego. Foram para o Canadá, Alemanha, vários outros países. A queda salarial, em média, é de 50%. E quem está trabalhando está feliz porque normalmente não tem emprego. Jornalista, por exemplo, não tem emprego. Tem até um jornalista que está colaborando com a nossa comissão e disse que só não está passando fome por conta da ajuda da família. A maioria dos empregos foram flexibilizados, as pessoas não têm direitos. Serviços de saúde fechados, escolas fechadas, não tem vacina em posto de saúde. Uma calamidade terrível. Trabalhadores virando mendigos de um dia para o outro. Tem ruas aqui em que todas as lojas estão fechadas. Todos esses pequenos comerciantes ou se tornaram dependentes da família ou foram para a rua ou, pior, se suicidaram. O número de suicídios aqui, reconhecidamente por esse problema econômico, passa de 5 mil. Tem vários casos de suicídio em praça pública para denunciar. Nesses dias em que estou aqui, houve uma homenagem em frente ao Parlamento para um homem que se suicidou e deixou uma carta na qual dizia que estava entregando a vida para que esse plano de austeridade fosse denunciado.

domingo, 5 de julho de 2015

Para muitos petistas que só mijam na caixinha de areia, a Grécia não é aqui

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O eloquente silêncio do PT sobre a vitoriosa reação do povo grego ao arrocho criminoso da banca é ofensivo a todos nós. 
Repito: ofensivo é o silêncio da direção nacional petista.
O PT virou suco e azedou, mas, como petista de 32 anos de militância espero que o suco não esteja (muito) vencido. 
É o que me resta.
A Grécia é aqui mas, para aqueles petistas majoritários e sofregamente "poderosos" - que só mijam na caixinha de areia da área de serviço, a Grécia não é aqui.
A Grécia é lugar nenhum ou, quando muito, iogurte.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Enquanto isso, numa audiência presidida pelo Juiz Valtencir Moro, El Vingador de La Classe Mérdia...

Um comentário:
Copiei a imagem de RAW
Os petistas malvadões não colaboram com o Juiz Moro!

- Vocês são petistas, não são?
- Não, Excelência, não somos. 
- Mas todos foram vistos em vídeo feito pela PF passando a menos de mil metros da sede do PT! Resta claro para este juízo que vocês são petistas! Vocês têm conta em banco?
- Sim, Excelência. Eu tenho até uma poupança.
- Viram? Este Juízo sabe que petistas fazem depósitos irregulares em suas contas correntes.
- Mas não somos petistas, Excelência! Somos skatistas!
- Petista, skatista, comunista, tudo igual! Os vídeos mostram tudo, o Ministério Público e a PF têm razão, eu recebi um prêmio da Globo e você ficarão presos preventivamente até que confessem tudo.
- Respeitosamente, Your Honour, mas devemos confessar precisamente o quê?
- Que vocês são petistas! Vocês são petistas! E transferem dinheiro para as campanhas utilizando o Banco Bolivariano Simon Bolívar, da Venezuela, o Banco Barbudón y Guevarista de Cuba e o pior deles, o Banco do Resplandecescente Camarada Park Chung Lee, da Coreia do Norte! Vocês são petistas, e petistas são culpados mesmo que provem ser inocentes! Joaquim Barbosa e Rosa Weber estabeleceram luminosa jurisprudência a respeito! 
- Mas, Excelência...
- Guardas, levem estes petistas malvadões para suas celas! Ração de pão e água até que confessem seus crimes!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Enquanto isso, no Palácio Iguaçu ...

Um comentário:
Copiei a imagem de Atomic Samba
O governador do Paraná, Beto "Love Hurts" Richa, examina o extrato da Paraná Previdência e sorri, aliviado: "Vou raspar o tacho daquela porra!" 

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Beto Love Hurts Richa ao lado do seu amigão, co-piloto e ex-chefe da Inspetoria da Receita Estadual, Márcio de Albuquerque Lima, no Autódromo de Londrina-Sur-La-Merde.
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A secretária de educação de beto love hurts richa, ladeada por secretários, prepara-se para mais uma rodada de porradas, ops, negociações com os servidores em greve.
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Apesar de já devidamente lavado e enxaguado, permanece secreta a identidade do deputado estadual paranaense que se borrou no camburão cagado do francischini.
Copiei a imagem de Atomic Samba
Roberval de Souza, auditor-fiscal, puto dentro das calças: "Se a esposa do governador, que é secretária de estado, não conhece e não sabe para o que serve um auditor-fiscal, para mim chega. Vou trabalhar no Gran Circo Francischini como
motorista do Fabuloso Camburão Cagado!" 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pelo direito de perturbar figuras públicas em restaurantes

Um comentário:
Copiei do Blog da Milly

Recebi pelo grupo de WhatsApp da minha família o vídeo do rapaz que fez um discurso para o ex-ministro Padilha em um restaurante fino de São Paulo. O grupo de WhatsApp da minha família é dessas coisas que quando fala de política tem a capacidade de me fazer hiperventilar, e me dá ganas de arrancar fios de cabelo da cabeça, então, sem querer estragar minha sexta-feira, demorei para clicar no vídeo; e, de fato, depois de clicar e assistir a performance não consegui pensar em mais nada.

Horas mais tarde, já na cama e tentando pegar no sono, continuei a pensar no episódio e, em delírio, me dediquei a imaginar mil respostas para o homem que, copo de prosseco na mão, bateu nele com um talher para anunciar o começo de um discurso – como fazem os gringos, esses tão idealizados por pessoas como o rapaz performático, nos filmes de Hollywood.

Que funcionários públicos como o ex-ministro Padilha sejam abordados pelo público para o qual trabalham não me incomoda nem um tico. Funcionários públicos estão a serviço da população e, assim, sujeitos a críticas públicas.

E há de fato milhares de ações do governo que podem e devem ser criticadas, mas uma análise do que aconteceu no restaurante Varanda entre o cidadão e o ex-ministro revela aspectos mais sombrios do momento pelo qual estamos passando. Por isso achei que era uma boa ocasião para ir buscar mais informações e compartilhá-las.

“Medicina é um dos métodos mais tradicionais de impor o socialismo de estado em uma população”, é o mantra do neo-liberal evocado pelo heroi da turma, Ronald Reagan.

E por mais incrível que pareça muita gente pensa como o rapaz que saiu dando estalinhos na taça de prosseco para anunciar seu corajoso discurso (porque, verdade seja dita, é preciso uma boa dose de ousadia para fazer esse tipo de exibição pública), e acredita que acesso à saúde é um privilégio e não uma obrigação do estado. Se você trabalhar duro e honestamente conquistará esse enorme privilégio e poderá pagar por ele; se não trabalhar …

O fascismo está no ar.

Recentemente um médico americano disse que o Obamacare, apelido do programa federal idealizado por Obama para atender americanos de baixa renda que não têm plano de saúde, é a pior coisa desde a escravidão. A pior coisa desde a escravidão, disse o homem em rede nacional de TV.

Segundo a constituição brasileira de 1988, o direito à saúde pertence a todos os cidadãos, e fica realmente difícil buscar razões para defender a ideia de que saúde não é bem público e direito de todos.

Nos últimos 14 anos, com o aprimoramento do SUS, o Sistema Único de Saúde, o país diminuiu a mortalidade infantil para 13 em mil nascimentos (era de 27 em cada mil nascimentos em 2000); mortalidade de mães durante o parto também baixou, assim como aumentou a expectativa de vida do brasileiro, que na década de 90 era de 66 anos e hoje é de 74.

O Bolsa Família ajuda fincanceiramente mães e filhos a fazerem check-ups regulares, e desde que José Serra, então ministro da saúde de Fernando Henrique, quebrou a patente de medicações para a AIDS o Brasil ganhou fama como uma nação que briga pelo direito de negociar patentes e tornar medicamentos baratos e disponíveis.

Mas nem tudo vai bem, muito pelo contrário, e o rapaz que decidiu levantar da mesa e se exibir para os amigos poderia, quem sabe, ter se valido de alguns dados realmente trágicos da saúde no Brasil.

Como o impressionante número de duas camas de hospital para cada mil brasileiros, e o fato de reservarmos menos de 10% do PIB para a saúde.

No Maranhão, a reduto dos Sarney, há 0,58 médicos para cada mil pessoas; no Rio esse número é maior, mas ainda assim baixo: 3,44 médicos para cada mil almas. Em 2012, entre 62 e 75% das pessoas que moram no sul do Brasil e precisaram de um transplante de rim receberam um enquanto menos de 27% conseguiram um rim no resto do país.

Só que existem dados relacionados à saúde capazes de me chocar ainda mais, e o performático cidadão paulistano poderia, quem sabe, ter se dirigido às demais pessoas do restaurante para esclarecer a eles o seguinte:

Embora a elite se enfureça com o “Mais Médicos”, os mesmos brasileiros quem podem pagar 60 reais por um pedaço de carne em churrascarias como o Varanda não pensam duas vezes antes de fazer uso do sistema público de saúde a fim de se beneficiar dos serviços e remédios mais caros, expurgando os menos privilegiados que não têm escolha a não ser a de usar o SUS.

Essa informação está em uma matéria da The Atlantic, da qual aliás tirei a maior parte dos dados desse texto, publicada em 2014 e assinada por Olga Khazan (trata-se de uma das mais renomadas revistas americanas, fundada em 1857, e o link para a íntegra da matéria está no final desse meu desabafo).

E segue o texto de Khazan: “Os brasileiros ricos levam muito a sério seu direito de saúde gratuita. Numa matéria de 2011, a Lancet descreve como os endinhieirados no Brasil costumam processar [o estado] pelo direito de usar as drogas experimentais e os procedimentos mais caros gratuitamente”.

Apenas um exemplo dado pela autora: Em 2008, o Rio Grande do Sul gastou 22% do orçamento de saúde para atender 19 mil liminares concedidas por juízes em benefício dos mais ricos.

Então, enquanto o “Mais Médicos” deixa a elite furibunda porque, afinal, o governo está fazendo uso do “meu imposto” para fornecer saúde, esse privilégio, aos miseráveis, a mesma elite enxerga como razoável fazer uso do serviço público em benefício próprio – ainda que possam pagar por ele (não por acaso esse é o mesmo cidadão que em casamentos nababescos sai com a bolsa lotada de bem-casados).

Num universo paralelo, os lixeiros do Recife recentemente imploraram pelo fornecimento de protetor solar gratuito pelo Estado, um direito meio básico na minha opinião, mas que muitos da elite devem achar que é privilégio e, assim, ser contra. Pode catar meu lixo, mas não me venha com essa frescura de protetor solar porque meu imposto não serve para essas bobagens.

Mas vamos ver que outras críticas a Marina Abramovic de calças e sem o talento da Marina Abramovic original poderia ter feito ao ter ímpetos de se levantar para perturbar o ex-ministro.

Ainda há quase 12 milhões de brasileiros morando em favelas, e saneamento básico não chega a todos, embora o crack chegue.

E se 40 milhões de pessoas ascenderam à classe média em anos recentes, um número impressionante e que deve ser comemorado, por outro lado problemas relacionados a isso não têm sido devidamente atendidos.

“Junk food é a primeira coisa que vem com o desenvolvimento economico”, disse à The Atlantic o médico Janos Gyuricza. Assim, existe hoje no Brasil uma epidemia de obesidade e diabete entre essa nova classe média que vive afogada em açúcar refinado.

O SUS alcança mais de 60% do território nacional, um número que é muito melhor do que já foi, mas que claramente está longe dos 100% prometido pela constituição, e o Brasil possui apenas 1,8 médicos por mil habitantes, índice é menor do que o de Argentina, Portugal e Espanha.

Pois é aí que entra o “Mais Médicos”, motivo da fúria do nosso amigo performático e tão vilanizado pela elite brasileira.

Segundo a revista The Economist, quando a administração federal lançou um programa para levar médicos aos lugares mais pobres do Brasil, apenas 938 brasileiros se inscreveram para preencher as 15.460 vagas. “A maioria dos 3.511 municípios que precisava de médicos ficou desapontada”, diz o texto.

Assim que o Ministério da Saúde abriu edital para adesão dos municípios ao Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que paga R$ 8 mil para que médicos recém-formados trabalhem em Unidades Básicas de Saúde nas regiões mais carentes, foram solicitados 13 mil médicos para atuação em 2.868 municípios, só que 55% dessas cidades não conseguiram um médico.

Não é preciso pesquisa ampla para que a gente entenda que, no Brasil, a profissão de médico é alcançada pelos mais ricos, que sonham em ganhar muito dinheiro e trabalhar no Einstein e no Copa D’Or, mas nunca em ir atender carentes em um vilarejo paupérrimo que nem cinema tem (e ainda que não exista nada de essencialmente errado com isso, é preciso que se encontre uma solução para atender os mais carentes).

Que esses vilarejos miseráveis ainda existam no Brasil deveria ser sempre motivo de lamento e revolta, claro, mas até aí querer que primeiro se civilize o vilarejo para que depois os “doutores” façam a gentileza de ir para lá é, para dizer o mínimo, desumano. Ou, como escreveu o poeta alemão Bertold Brecht, citado por meu amigo e ídolo, o jornalista Edson Rossi, primeiro vem o estômago, depois a moral.

Chegamos então aos doutores cubanos que, ao contrário dos brasileiros, não se importaram de ir trabalhar nos vilarejos carentes de assistência médica (Cuba tem reputação mundial em relação ao sistema de saúde, mas é preciso que se quebre o preconceito para conseguir assimilar tudo o que a medicina cubana tem de revolucionário).

Segundo informações divulgadas pelo jornal Valor Econômico, o “Mais Médicos” conta com 9490 profissionais em 3025 municípios e 31 distritos indígenas. São, de acordo com o Planalto, 33 milhões de beneficiados até aqui.

Como podemos nos opor à ideia de enviar médicos, de qualquer nacionalidade, para tratar de pessoas que precisam?

Claro que o programa pode ser aperfeiçoado, claro que talvez tenha falhas e a necessidade de ajustes, mas daí a vilanizar um programa social que oferece médicos, remédios e dignidade a quem até ontem não tinha nada disso é apenas cruel.

Pior ainda é se propor a pagar o mico de falar em público, no meio de um restaurante no qual um pedaço pequeno de bife custa mais de R$50, para verbalizar um mimimi infantilóide sobre quanto o programa custou aos “nossos” bolsos. É a turma do “tudo para a gente, nada para eles” protagonizando performances em São Paulo.

É também preciso que se celebre o movimento de transformação que o “Mais Médicos” desencadeou: desde a chegada dos médicos cubanos, milhares de médicos brasileiros decidiram também fazer parte do programa (das 4139 novas vagas, 3752 foram preenchidas por brasileiros), e o Governo acha que, com essa nova força de trabalho, o “Mais Médicos” poderá beneficiar 70 milhões de pessoas e alcançar 80% do território até 2018.

É preciso uma boa dose de preconceito e desinformação para ser contra um programa cujo nome é “Mais Médicos”, é preciso uma boa dose de egoísmo para ser contra fornecer uma parcela de nossos impostos para financiar médicos e assistência a quem precisa, é preciso uma dose cavalar de ignorância para, dada a coragem ideal, levantar da mesa no meio de um restaurante lotado e escolher criticar justamente um programa de inclusão social  — embora seja perfeitamente aceitável lutar para que qualquer programa social fique melhor e seja ainda mais abrangente.

Assim, em meus devaneios, nosso amigo atrevido e performático poderia ter aproveitado a coragem que o moveu a discursar em público para dizer por exemplo um troço assim:

“Sou um cidadão insatisfeito com a situação atual e não aceito nem uma gota a menos do que todo e qualquer brasileiro com acesso à saúde gratuita e de qualidade, senhor ex-ministro da saúde”

Então, antes de sair compartilhando e aplaudindo performances como a desse rapaz na churrascaria Varanda seria bacana se a gente fosse atrás da informação. Porque do mesmo jeito que o rapaz tem todo o direito de se levantar e dividir com o resto do Brasil toda a sua insatisfação, nós temos o direito de vaiá-lo.

Texto da The Atlantic aqui

domingo, 17 de maio de 2015

Poema das estufas, ou da teoria e da prática, poema da vida

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Nas estufas
Pássaros pipilam
E fazem seus cocozinhos 
No canto adequado
Sinos bimbalham nas estufas
São lindos os sons dos sinos
E vicejam as teorias floridas
E as consignas descoladas
Tudo sob controle
Temperatura e umidade
Insolação e aeração
Em níveis sempre adequados
Não há erros nas estufas
Teorias e consignas
Estão sempre cheirosas
Limpas e apresentáveis
E revolucionárias
Logo ali adiante
Nas quebradas
Cimento sujo
Esgoto a céu aberto
Telhas quebradas
O vento uivando
O pó entrando
As teorias floridas
As consignas descoladas
Antes tão cheirosas
Empacam seus costados
Na aridez da realidade
Na sordidez da realidade
Na fedorenta realidade
Passam fome
A água é turva
Teoria e consignas
No mais das vezes
Morrem de espanto
Há quem aprenda
Com a sujeira dos erros
Com o fedor dos recuos
Com a aspereza da vida
E permita que as teorias perfeitas
E as consignas sedutoras
Sejam afinal contaminadas pela vida
Teorias devem ver-se assim
Ou deveriam ver-se assim
Há quem permita que teorias perfeitas
Sejam lambuzadas pela porra da vida
Mas há quem insista em viver
Debaixo de estufas
Eis-me aqui admitindo meus erros
Eis-me aqui vivo
Cabeça erguida
Eis-me aqui
Encarando olho no olho
Meus filhos e netos
Afinal não é muita coisa
Mas é o que tenho
Mas quem vive nas estufas
Terá sempre acolhida aqui em casa
Mesmo que não me queiram nas suas

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Poesias dispensáveis, 1978: Senhora

Um comentário:
Ventania senhora dos meus cabelos
hoje estrelas de junco 
e o verão não mais cabe em meu corpo
hoje estrelas de feno 
os faróis escondem o meu corpo
estrelas de feno de terra seca de água suja
estrelas de ferro 
de terra fértil 
de negros olhos grandes
estrelas de olhos 
senhora das estrelas
Estavas de branco senhora dos meus amores 
de brancos dedos de prata
Senhora dos meus dedos pegajosos
estavas de ares novos 
senhora dos meus sonhos pegajosos
arestas senhora dos meus olhos 
arestas perigosas
aranhas senhora anti-corpo olhos pegajosos
Senhora dos meus versos 
em teu corpo, teu corpo 
(minha velha estrada)
senhora dos meus ais 
doces de açúcar mascavo
doces dentes brancos
dentes teclas brancas de piano
Senhora 
os muros altos 
senhora dos meus atos 
e os gritos brancos 
senhora dos meus espaços 
e o meu sonho 
senhora do meu sono
E grandes beijos
senhora da minha boca
Senhora dos grandes olhos negros em festa
senhora da minha pele
Montanhas senhora das minhas naturezas
rios senhora das minhas águas
Minhas eternas luzes brancas
senhora dos meus domínios 
povo descalço grande rio pegajoso
Senhora dos meus vícios
dos meus dedos
dos meus horários
Senhora das minhas necessidades
das minhas idades
das letras do barro pegajoso
das lesmas das lentas mortes das lentes
Senhora das minhas luzes apagadas 
das chuvas de branco
senhora pacificada
Senhora dos meus sonhos 
imensos campos de trigos 
terras secas beijos beijos
Senhora dos meus intestinos 
mãe dos meus ventos 
irmã dos meus desertos
dos rios dos vales
senhora dos pedaços
Senhora dos relógios velhos aposentados
das notícias de sangue
senhora do meu sangue
Senhora das minhas pernas 
das minhas almas
Senhora das minhas armas brancas
dos meus fuzis
Senhora dos lençóis 
dos orgasmos 
luzes apagadas
Senhora dos fenóis
da minha interna química corporal
Senhora das máquinas
das tintas 
das fumaças 
das cores
dos vestidos verdes
Velhos vencidos
senhora dos vencidos branca senhora
senhora dos olhos da noite 
Senhora do drama do tango
do tango a média luz
dos semáforos
dos fósforos 
das varandas
Senhora dos retirantes
Senhora dos pés descalços 
do trigo 
de julho
das lãs
Senhora dos apressados
Senhora dos ares dos tempos dos templos
Senhora do meu espanto
eu te preciso com todos os meus erros de concordância
eu te preciso com todos os meus erros de inglês

(Cometido em 1978, se bem me lembro)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Dias das mães

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Poema para minha mãe

As mães são maria e clara
joana e clarice

marta e tânia
Sorte sua  
Há quem não tenha mãe alguma
Nem maria e tânia
Nem clara e marta
Nem joana e clarice
Mãe nenhuma
Chame sua mãe
Agarre suas duas mães

De nelas oitocentos abraços
E dois mil beijos

Você pode fechar os olhos
E sentir-se seguro

Mesmo que suas mães sejam imperfeitas
E elas são humanamente imperfeitas
As duas estão ao seu lado
Eu tenho uma mãe formidável
Carmelita Cequinel

Que se mandou em 2009
Darei nela maio 2015 
Mil e seiscentos abraços e quatro mil beijos
Eu e você
Abraçaremos nossas mães
E Sonia abraçará a mãe Alzira